Capitulo 1: O nome da Vida.
Suponho que em algum momento de minha narrativa serei obrigado a me apresentar, como poderei nomear-me, a você, meu caro leitor? Afinal quando se vive tanto, acaba-se tendo vários nomes, então creio que seja necessário respeitar uma ordem cronológica,como assim o farei.
Chamem-me Eshe,nascido em Tebas por volta do ano 7 do reinado de Tutmés III,logo que a rainha Hatsepsut assumiu o trono,contrariando às tradições e continuando a contar o calendário a partir do inicio do reinado de seu irmão,que estava na menoridade.
Como vocês,não lembro do inicio de minha vida,então só posso lhes contar a partir de minha adolescência.Meus pais eram boas pessoas,trabalhavam duro nos campos da Rainha Faraó. Mas mesmo com pais trabalhadores eu sempre fui visto como um problema,por ter um porte um tanto atlético e uma boa altura,cerca de 1,78m,o que era algo significativo na época,estava sempre a entrar em combates e brigas, o que de certo revoltava meus pais, que apreciavam a paz do novo reinado.
Ao completar 17 longos anos de vida,chegava a hora de herdar os deveres do campo,o que não agradava nenhum um pouco à um jovem rebelde que adorava combates.
E em meio a um de meus “combates” fui parado por um oficial de certo nome nas fileiras do reino.
Senemut,como foi nomeado por seus pais, era um oficial do exercito de origens modestas,mas reconhecido por seus inúmeros serviços prestados ao reino,e em seu tempo de serviço tornou-se conselheiro da própria rainha,a qual preparava-se para uma pequena campanha,na região da Núbia.
Como um jovem rebelde e amantes de lutas,sabendo da campanha,não era nenhuma surpresa tentar falar com o oficial que me abordava.
- Senemut! Você é Senemut não é?
- E você é um arruaceiro não estou certo? Poderia estar em grande encrenca agora garoto.
- Por isso peço-lhe desculpas. Sou filho de camponeses,meus pais são pessoas honradas e servem ao reino a muito tempo,mas não me vejo levando a vida como um camponês,por isso lhe peço uma chance nas fileiras reais,eu sei sobre a campanha na Núbia,tudo que quero é uma chance,apenas uma.
- És um garoto tolo,levas a vida no nome,e mesmo assim desejas juntar-se a uma campanha dessas? Tem tanta pressa assim em perder a vida?
Deveria agradecer aos Deuses pela vida que tem e não joga-la fora em combate.
- Se não aposta-la em um combate,também a estarei jogando fora no campo,garanto-lhe que serei um soldado de valor. Prefiro perder minha vida em um instante de combate do que desperdiçá-la plantando trigo.
- Muito bem garoto,lhe darei uma chance,mostre-me que à paixão em suas palavras,a campanha começa em um mês,esteja amanha junto as fileiras,forjaremos um soldado em você.
Senemut rapidamente retirou-se em meio aos portões do palácio,deixando-me extasiado pela conversa,nem mesmo o sol do deserto me abalava,minha mente divagava pelas areias do deserto,amanhã começariam os treinos,e eu teria minha guerra!
Capitulo 2: À Núbia!
A noite foi longa,minha respiração pesava,estava em demasiado êxtase para dormir,cada sombra que passava pelas frestas da janela de madeira despertava minha atenção,e naquele momento,naquele exato instante,era como se fosse um só com meio,nada me passava desapercebido,nem mesmo os pequenos insetos que passeavam sob minha cama em busca de comida.
Momentos após eu via sol atravessar meu quarto,as primeiras fagulhas de luz que escorregavam suavemente sobre meu rosto anunciavam minha hora,logo me levantei e corri a cidade até os portões do palácio.
Era o primeiro,o sol nem acordara direito ainda e la estava eu,parado como uma estatua olhando atentamente para o portão principal,minha mente era um vazio de tantos pensamentos que passavam por mim naquele momento,nem mesmo sentia os grãos de areia que sopravam a leste e acertavam suavemente meu rosto,não percebia os outros garotos chegando e conversando entre si,estava apenas parado como uma pequena estatua naquele imenso lugar.
No exato momento em que a luz do sol iluminou um pequeno espelho no topo do portal,o portão principal se abriu,e da grande escadaria descia Senemut e um homem acompanhando-o logo atrás.
- Esse homem é Athos e será seu comandante – Disse Senemut em baixo tom.
- Muito bem garotos,no próximo mês saberemos quem de vocês tem condição de unir-se a campanha,os inúteis serão rapidamente descartados,não há segunda chance comigo,nunca ouve e não começara agora,aqueles que acataram podem me seguir.
Todos nós o seguimos rapidamente.Athos tinha uma postura imponente,algumas cicatrizes marcavam seu rosto,assim como varias outras seu corpo,era um homem de poucas palavras,falava apenas o necessário,e nunca pronunciava uma palavra a mais.
Os primeiros dois dias de treino foram testes para eliminar os fracos,alternávamos entre corrida e natação,as vezes alguns exercícios de resistência,apesar de simples esses testes eliminaram quase metade do contingente.
No dia seguinte fomos acordados mais cedo do que de costume,não que dormíssemos muito naqueles alojamentos fétidos,e fomos levados a uma grandes arena onde havia armaduras extremamente grossas e armas de madeira.
- A partir de agora esse será seu campo de treinamento,essas armaduras e armas são algumas vezes mais pesadas que todo equipamento que levarão em combate,se acostumem a elas,a partir de agora vocês respirarão combate e nada mais,a cada dia escolherei um de vocês para um pequeno combate contra mim,e é melhor não me desapontar,porque sou eu quem decido a sua permanência aqui.
Durante a primeira semana treinamos todos os movimentos de combate possíveis com armas extremamente pesadas,aprendemos todo tipo de golpe e bloqueio,e repetíamos a exaustão cada um deles,para depois no fim do dia treinarmos nosso corpos para agüentar a extensa marcha que faríamos.
Ao inicio da segunda semana,logo após entrarmos em formação Athos dirigiu-se a nós pela primeira vez em algum tempo.
- Muito bem,parece que temos aqui os sobreviventes da primeira semana,e agora iremos começar o verdadeiro teste,e eu irei começar por você garoto,Senemut disse que demonstrava grande dedicação,e isso será o que veremos agora.
- Sim Senhor – Foi tudo que consegui e de fato precisava responder aquela hora.
Aquilo acabou sendo um choque,não esperava ser o primeiro,não sei nada sobre como ele luta,o combate homem a homem é diferente das técnicas em formação,eu não podia desperdiçar aquela chance,devia provar a todo custo do que era capaz,não podia ser o primeiro a ser mandado embora. Momentos depois eu estava pronto,a espada de madeira era como um papel se comparado à que usávamos em treino e a proteção também era bem leve,o suficiente para movimentos rápidos.
Athos chegou usando apenas sua túnica de costume e uma espada semelhante de madeira,ele não deu nenhum aviso e já avançou sobre mim como um lobo esfomeado.
Minha mente agora recordava cada informação valiosa ao combate.
- Um golpe por cima,bloqueie! – dizia a mim mesmo.
- Agora ataque pelo lado.
- Assim não,com confiança.
- Corte seco,desvie!
- Rápido ganhe as costas,isso é tudo que sabe fazer,vamos Eshe,um golpe apenas! – continuava a me repetir.
Athos era formidável em combate,seus movimentos fluidos como a água,mas após algum tempo lutando eu me acostumava a sua velocidade,golpes poderosos e rápidos acertavam meu bloqueio,algumas marcas ficavam em minha pele mesmo que não acertasse em cheio,eu precisava esperar o momento certo e mostrar do que era capaz,esperei por um movimento mais longo de sua espada para fazer meu movimento, e o fiz,sacrifiquei minha arma no golpe dele,girei pelo lado oposto do corte,e avancei com as mãos nuas,apenas um soco!
Pouco depois tudo que eu enxergava eram minhas pernas no chão,o suor e o sangue respingando de minha testa,as lascas da espada que não estavam no chão a minha frente estavam incrustadas em meus dedos,só ouvia um zumbido agudo no ouvido enquanto minhas entranhas pareciam estar criando vida e tentando cavar um buraco em meu peito para fugia,meu estomago reduzia-se a um pequeno nó em meu interior enquanto seu conteúdo se forçava pela minha boca junto com algum sangue.
O zumbido diminuía e pouco a pouco ouvia meus companheiros gritando,mesmo parecendo que estivessem a milhar de distancia,talvez até do outro lado do Nilo,e suas vozes iam ficando mais fortes,mais próximas até que finalmente um grito cru e seco me acordou!
- Acorde soldado!
Como se desapertasse de um pesadelo,logo percebi que estávamos em marcha,todos aqueles dolorosos momentos de treino passavam pela minha mente como raios,mal percebia que já nos aproximávamos da Núbia.
Apenas alguns segundos depois,um sinal,todos paramos rapidamente. Logo vimos que o sinal viera da rainha,estávamos nos preparando para o combate e eu não sabia o que fazer,na minha mente faziam apenas alguns minutos que eu fora nocauteado no campo de treino,mesmo fazendo meses,não acreditava que o momento tinha finalmente chegado!
Respirei fundo,senti o gosto áspero das areias do deserto em minha boca,os ventos sopravam calmamente,o deus Rá era a única testemunha alheia desse pequeno,porém belo conflito.
Contávamos pouco mais de 2.500 soldados,e os números deles também não eram muito maiores,a pequena diferença é que nós éramos treinados,e eles meros revoltosos,seria fácil,tinha que ser fácil!
A rainha postava-se a frente das tropas,e como uma águia que esguia a ligeira lebre,ela olhava um por um os rostos dos revoltosos,e ela olhava com um vigor e autoridade inimagináveis para aqueles que não a presenciaram,era como um gigante olhando meras formigas antes de esmagá-las.
O silencio se fez presente por algum tempo,tempo este em que era impossível diferenciar um segundo de toda a eternidade,podia-se ver os grãos de areia do deserto pairando lentamente sobre a imensidão do deserto,o suor escorria lentamente pelo rosto dos homens de ambos os lados,um breve momento em que a eternidade cabia dentro de segundos,era a calmaria antes da tempestade.
E sem aviso quase que num estalar de dedos,um trovão violentamente rasga os céus na forma da voz de Senemut,que bradou ferozmente!
-EM FRENTE HOMENS!!!
Como quando se acorda dentro de um sonho em que não se lembra o começo,nós nos vimos acelerando o passo,correndo,cada vez mais rápido em direção aos inimigos,era o momento da verdade,um súbito silencio e então o estrondo das tropas se chocando,espadas gritando no ar,sangue cobrindo a areia como um lençol e os gritos dos homens caídos.
Em questão de segundos eu estava em meio as tropas rivais,cercado,sem muito tempo para pensar,eu sabia o que fazer,tinha que cortá-los ou ser cortado,esperei um breve segundo,então o mais afoito deles fez o primeiro movimento,um erro,tirei meu corpo para o lado e num golpe de cima a baixo,corte-lhe profundamente a nuca.
Estava morto,avia acabado de matar meu primeiro homem,e como qualquer jovem,eu queria mais,e sem me exaltar,acalmei a sede de sangue e esperei os outros,um a um eles voavam pra cima de mim,só para sentir o gosto de tocar o vento com a espada,e a areia com a face,eles eram desastrados,não sabiam nada,lentos,desesperados,vazios,não tinham nada,cada um que vinha era apenas mais uma presa fácil para minha lamina.
A rainha olhava de longe,e por um segundo percebi que ela olhara em minha direção,enquanto eu pintava o deserto com um vermelho escarlate,aquele pequeno olhar despertou algo em mim,algo perigoso,imprudência,eu queria mostrar que era digno das tropas reais,e violei um mandamento sagrado para os soldados,avancei com imprudência!
Capitulo 3: Desespero
Eu não era mais um nobre soldado,aquela ansiedade tornou-me apenas um assassino monstruoso no campo de batalha,feroz e implacável,mas até quando? Um soldado imprudente nunca dura em um campo de batalha,e a partir do momento em que eu disparei em meio as tropas inimigas,meu destino havia sido selado.
Já fazia pouco mais de duas horas que eu estava combatendo,meus movimentos antes leves e sutis,agora eram pesados e desajeitados,e graças a inexperiência eu me encontrava cercado por todos os lados,sentia cada grão de areia que batia em meu rosto arder como o chicote,o suor embaçava minha visão e minhas pálpebras me traiam,não era mais um lobo,era um cordeiro esperando o abate,e os que antes eram cordeiros,agora avançavam como lobos ferozes,me cercavam,e a pressão aumentava,cada vez mais perto e então num descuido,fechei meus olhos por um segundo,e o primeiro golpe veio cruel.
-Desvie-falei comigo.
O segundo veio impiedoso
-Abaixe-se e seguiam-se os golpes,rápidos,ou melhor,eu estava lento,exausto,e num estante um grito:
-Eshe! – Gritou Senemut,correndo com as tropas em meu reforço,um alivio percorreu meu corpo,com uma sensação estranha,gelada,e por um segundo senti como se tivessem jogado água quente em meu peito,não sentia o ar,não conseguia puxá-lo para mim,não entendia nada,novamente senti a sensação fria passando pelo meu peito,meus ossos,meu pulmão,eu havia sido ferido,e só me dei conta quando estava caído no chão,morto...